Domingo, 12 de Agosto de 2012

Turquia: Ramadão 2011 e 2012



  © 2012 Berhamkale - Assos


Estamos no Ramadão, Ramazan (tr) Ramadan (ar). Ou seja, o período de jejum e oração para os muçulmanos, interrompido pela Iftar, que é a refeição tomada depois de o sol se pôr, após o Muezzin ter chamado os fiéis para a 4ª oração do dia. Em alguns lugares da Turquia, soam os tambores que anunciam o fim do jejum ao cair da noite. Por volta das três horas da manhã, o Muezzin acorda os crentes com uma melodia lindissima, a ilahi, da qual existem várias versões; antes de se dar novamente início ao jejum do dia com o nascer do sol, é tomada a refeição da madrugada - a Suhar. Pouco depois, o Muezzin chama para a 1ª oração do dia, o 1º vakit, dos 5 Vakti, os cinco tempos de oração ao longo do dia. Inicia-se o jejum do dia. Muitos se perguntam o significado deste jejum. Foi neste período que Allah, que é apenas a palavra árabe para Deus, tal como em inglês se diz God e em francês Dieu, começou a revelar a mensagem do Alcorão a Maomé e é precisamente esta Revelação que se comemora durante o Ramadão. Este mês é ainda um período de reflexão sobre vários aspectos religiosos e sobre a vida que vivemos durante a passagem terrena. O jejum, que implica não comer nem beber nem fumar durante o dia, inter alia, serve para lembrar, sentindo na própria pele, o que, porventura, sentem os desprovidos, famintos e sedentos; é também um mandamento ou pilar do islão fazer caridade aos pobres, especialmente nesta altura do ano. As crianças, os doentes, as grávidas, os viajantes estão dispensados de jejuar, embora, no fundo, cada um possa decidir por si próprio se irá ou não jejuar, já que cada um é responsável por si e por escolher o relacionamento com Allah que lhe está mais perto do coração. É também possível oferecer um certo valor em dinheiro pelos dias de jejum não cumpridos, o que pode ser decidido por consulta a um imam, e essa importância será canalizada para caridade. Claro que, no Islão, há muitas vertentes, tal como no Cristianismo e no Judaísmo, e haverá uma variedade significativa de interpretações possíveis sobre este e outros assuntos religiosos conforme o islão em que se nasceu ou se escolheu praticar. A consulta dos Hadith, ou seja os comentários dos exegetas do Alcorão, pode ser preciosa em questões de interpretação.



© 2012 Sultan Ahmed Istambul


© 2012 Sultan Ahmed Istambul

São várias as iguarias típicas desta época e as donas de casa, e também os cozinheiros, excedem-se nos seus dotes culinários para quebrar o jejum depois do pôr-do-sol. Durante o Ramadão, as famílias visitam-se muito e praticamente todos os dias há convidados nas famílias turcas. A azáfama do Ramadão é indescritível. O dia passa-se em preparações para a Iftar e nas orações. Em muitas aldeias turcas não se trabalha porque é difícil jejuar, mas nem todos jejuam, nem todos deixam de trabalhar. Aproxima-se o fim deste período muito importante no calendário muçulmano e a época festiva que se segue é o Şeker Bayram (tr),  o Festival do Açúcar,  ou o Eid al Fitre (ar), isto é, a grande celebração que assinala o fim de Ramadão e que é celebrada por todos, tenham ou não cumprido o jejum. Os não-muçulmanos também são convidados para a Iftar e para as celebrações do fim do Ramadão, mostrando os turcos a sua atitude de tolerância centenária e, sobretudo, a sua enorme hospitalidade. Assim como no Natal se deseja um Santo Natal aos cristãos, aos muçulmanos deseja-se Ramazan Mübarek olsun ou Hayırlı Ramazan (tr), Ramadan Mubârak (ar). Findo o Ramadão, é de tradição desejar aos familiares, amigos ou mesmo estranhos as Boas ou Santas Festas: Iyi Bayramlar (tr), ou Eid Mubârak ou Eid Saíd (ar) pessoalmente, ou por cartão ou postais com os motivos festivos da época.

É tempo de celebração, de amizade e de solidariedade com os mais desfavorecidos e de não esquecer de dizer àqueles de quem se gosta e se ama, que gostamos deles e os amamos.

O DIB, entidade religiosa estatal turca, e outras organizações, preparam banquetes públicos na rua para quebrar o jejum à noite, como por exemplo, nas imediações da mesquita de Sultan Ahmed, que fica no centro monumental de Istambul. No fim do Ramadão, muitos partem para umas merecidas férias. Neste ano de 2012 no corso de Istambul há um mercado com casinhas onde se pode comprar artesanato e artefactos tradicionais turcos aberto à noite. As ruas estão cheias de gentes de todas as idades e de todas as nações que passeiam pelo centro histórico de Istambul numa atmosfera intensa de festa. A lua cheia espreita por detrás de uma das torres da Mesquita Azul e os fiéis e os turistas entram e saem de uma das mais bonitas e emblemáticas desta metrópole.

Conhecer as festividades das outras religiões aproxima-nos das pessoas com crenças e culturas diferentes das nossas e afasta-nos dos profetas da desgraça que apostam numa interpretação negativa e nefasta da Humanidade, insistindo na faceta do conflito das civilizações. O desconhecimento do outro promove a xenofobia, enquanto o conhecimento das outras culturas nos aproxima uns dos outros! Na realidade, temos muito mais em comum do que aquilo que nos afasta e, no caso das três religiões abraâmicas, até temos o mesmo patriarca, ou seja Abraão...

Por isso não se esqueçam de dizer aos vizinhos ou amigos muçulmanos nos próximos dias: Ramazan Berekt Olsun ou Ramadan Mubarek e no fim deste período de reflexão -  Iyi Bayramlar ou Eid Mubârak ou Eid Saíd!...







E, a propósito festas e culinária, deixo uma sugestão de çorba, ou seja, sopa em turco, que adoro, e até as há, instantâneas:



© 2011  Pacote da Maggi sobre um mapa de Istambul no cruzamento entre a Europa e a Ásia


o seu ingrediente principal é a Tarhana que é feita com farinha, yogurte, salça - molho de tomate turco, pimento vermelho, cebola, sal e fermento.

Em muitas aldeias prepara-se a Tarhana a partir destes ingredientes que são amassados até obter uma massa uniforme, que se põe a secar ao sol até ficar em pó; isto é um método de preservação natural que permite saborear esta sopa deliciosa mesmo no inverno.

Aqui vai a foto de uma das fases de preparação da Tarhana Çorbası numa aldeia turca



© 2011  Turquia: Preparação da massa de Tarhana na açoteia de uma casa de aldeia

e para abrir o apetite para as celebrações, aqui vão algumas fotos para espreitar e antever os sabores da culinária turca



© 2011  ciğ boreği e biber dolması






© 2011

 




 © 2011 yoğurtlu semizotu


e, para terminar, uma foto do 3º lugar mais sagrado para o Islão, e ainda o lugar santissimo do Cristianismo e do Judaísmo, tirada no bairro árabe de Jerusalém antiga durante o Ramadão. De notar que a uns metros à frente há uma das estações do calvário de Jesus, logo seguida de mesquitas e do complexo austríaco católico - uma rua ecuménica no bairro árabe de Jerusalém, que é árabe: muçulmano e cristão. Por esta mesma rua, passam rápidos os ultra-ortodoxos judeus em correria entre o Muro das Lamentações e o Bairro ultra-ortodoxo de MeaShearim, situado fora das muralhas, e também os muçulmanos que, nesta altura do ano, visitam o recinto da mesquita Al Aksa e da Cúpula da Rocha onde o patriarca Abraão esteve disposto a sacrificar um dos seus filhos, se Deus, Allah, não tivesse interferido noutro sentido. As ruas estão iluminadas durante todo o período do Ramadão e as ruas cheias de famílias árabes numerosas que passeiam em trajes de festa depois da Iftar - passar por lá nesta altura especial do ano, é uma experiência fantástica e inesquecível e, assim, aqui fica uma pequena memória fotográfica.

 

© 2011  Jerusalém ou Al Kuds - a Sagrada, durante o Ramadão


Desejo a todos:

Ramazan mubarek olsun (tr)

Ramadan Mubarak (ar)

e a partir do dia 20 de Agosto, data em que termina o Ramadão de 2012

İyi Bayramlar (tr)

Eid mubârak e Eid Saíd (ar)


Para quem gosta de música, deixo um exemplo das canções Ilahi

http://www.youtube.com/watch?v=uClz3vSDCQk


copyright © 2011  do texto e de todas as fotos de Cristina Dangerfield-Vogt, com actualização de 12.08.2012

publicado por Cristina Dangerfield - Jornalista às 19:53
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2 comentários:
De O a 12 de Agosto de 2012 às 20:05
Todo o muçulmano é criminoso, seja em que lei for, e se for pela lei do islam, não tem a mínima salvação.
allhau akbar significa que allah é o maior em tudo, nomeadamente o maior enganador e criminoso.
No islam, não há ninguém maior do que allah, seja no que for.

Em verdade, só fora do islam, O Bem pode Existir.


De cristina vogt-da silva aka dangerfield-vogt a 13 de Agosto de 2012 às 09:45
Allahuekbar - significa que Deus é grande e não como afirma no seu comentário, o maior!
O diálogo das civilizações é importante e este tem como premissa encontrar aquilo que nos aproxima e não o que nos afasta uns dos outros. Todos morreremos e iremos prestar contas por aquilo que fizemos e não fizemos e por todos os nossos bons e maus pensamentos. A tolerância é a palavra chave para o entendimento entre os povos e as pessoas.


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