Sexta-feira, 7 de Março de 2014

Sefarditas Salvos pelos Sultões Otomanos


copyright ©  Março de 2014 Cristina Dangerfield-Vogt

Istambul, esta cidade entre dois continentes, Europa eÁsia, entre o Ocidente e o Oriente, vive desde há muitos séculos omulticulturalismo e soube vivê-lo e aproveitá-lo naquilo que ele tem de melhor- a tolerância e o enriquecimento dos povos que nesta cidade viveram e vivempar a par um quotidiano nem sempre fácil de negociar, mas no todo, bemsucedido. Tem sido porto de abrigo para muitos refugiados e perseguidos pelaintolerância religiosa, étnica, política, para aqueles que fogem das guerras,recentemente da Síria, e outras catástrofes criadas pela humanidade. 


NaTurquia - Há um longa Tradição de Tolerância 

Judeus salvos porturcos no holocausto é uma história comovente mas que se situa num vasto lequede muitas outras histórias de tolerância que caracterizam a história do povoturco e otomano. (ver post anterior)

A tradição de darasilo e garantir refúgio aos Judeus perseguidos numa Europa intolerante teveinício no tempo dos sultões otomanos, quando os Reis Católicos de Espanha,através do decreto de Alhambra, e, mais tarde, D. Manuel I de Portugal,ordenaram a expulsão ou a conversão forçada dos Judeus ao catolicismo. Acarnificina que se lhe sucedeu levada a cabo pela "Santa" Inquisição,como era designada, e os seus acólitos, de que se destaca o horrívelTorquemada, o inquisidor-mor espanhol, realizada ao longo de váriosséculos, resultou na fuga em massa dos judeus que conseguiram escapardaqueles países. Muitos deles encontraram refúgio no Império Otomano. 

O sultão otomano, Fatih Mehmed, que conquistou Constantinopla em 1453, chamouos judeus da Europa para o império. Mais tarde o sultão Beyazit II teráafirmado que o Rei Fernando de Espanha empobrecia o seu Reino para enriquecer oImpério Otomano. Esta frase, que ficou célebre, não se referiria às riquezasmateriais, mas sim à cultura e aos conhecimentos médicos, científicos, náuticos,matemáticos, filosóficos, linguísticos, etc. que muitos destes judeus levarampara o império otomano. Na corte otomana havia médicos judeus e algunssefarditas chegaram mesmo a ocupar cargos importantes na administraçãootomana. 

Um século mais tarde, um turista inglês que na altura visitara Istambul, teráafirmado que a capital do Califado teria a maior concentração de judeus nomundo, ou seja, cento e cinquenta mil, só em Istambul.

A convivência e a liberdade dos vários grupos étnico-religiosos só foi possívelsob um sistema de governação muito especial e que nessa altura era inexistentena Europa.

O sistema otomano dos "millet" - melhor traduzido por nações, previaum regime em que cada "millet" se auto governava: tinha os seustribunais próprios, em sede de direito da família e do direito civil, liberdade de culto, os seus programas escolares próprios, a sua língua,etc. O todo era coordenado pelo poder administrativo e  instânciasjudiciais superiores do império otomano, baseado na Sharia.  A segurançado estado e a cobrança de impostos era da competência da adminstração otomana.Contudo, havia isenção de alguns impostos para os "millet".Estesistema foi um exemplo de pluralismo religioso pré-moderno.

Mesmo hoje, na Turquia moderna, e apesar de muitos sefarditas terem partidopara Israel, vários turcos de etnia judaica se destacam nas áreas das artes edos negócios. Izzet Pinto é sefardita, descendente de judeus portugueses, e é odistribuidor de 'Muheteşem Yüzyıl' (Anos Magníficos - sobre Solimão, oMagnífico, e o seu tempo) uma telenovela turca que tem sido um sucesso nacionale internacional, com vendas para mais de 70 países, incluindo a China e aRússia, e vários milhões de espectadores. Um sucesso turco-sefardita já que odistribuidor tem desempenhado um papel fundamental na divulgação internacionaldeste "dizi", a palavra para telenovela em turco!

O pluriculturalismo-etnico-religioso na forma dos "Millets" foi umacaracterística marcante do quotidiano no Império Otomano, tendo também muitosjudeus asquenazes fugido das perseguições do Leste da Europa procurado eencontrado refúgio junto dos otomanos. Esta tradição de tolerância tem-semantido na Turquia moderna e Istambul continua a ser a cidade das váriasnações, embora menos acentuadamente do que em tempos idos por razões da suahistória do século passado. As tensões que tiveram origem na política dospaíses ocidentais que pretendiam partilhar o território otomano entre eles,resultaram na guerra da independência para defender o país. A perda do império,que se desagregou e foi ocupado pelos aliados europeus, resultou num paísmoderno, a Turquia. O xadrez colonial criado pelos aliados, que procuravam matérias-primas,gerou  efeitos desequilibrantes para a região que ainda hoje se fazemsentir. Ata Türk, o fundador da moderna Turquia, salvou o país, que seconsiderava moribundo, de uma morte que parecia quase certa, e da partilha dosdespojos pelas potências europeias mais aguerridas. A ele se deve a Turquiamoderna.


copyright ©  Março 2014 Cristina Dangerfield-Vogt

publicado por Cristina Dangerfield - Jornalista às 11:38
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 1 seguidor

.pesquisar

 

.Fevereiro 2016

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
12
13

14
15
16
17
18
19
20

21
22
23
24
25
26
27

28


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. A VIDA NUMA MALA - Cristi...

. O Jardim dos Justos - Lem...

. Êxodo dos Sefarditas de E...

. Sefarditas Salvos pelos S...

. A propósito do Dia Intern...

. Istambul - Üsküdar

. ...

. Turquia: Ramadão 2011 e 2...

. Turquia: em Lisboa

. Turquia: Büyük Husun, uma...

.arquivos

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2015

. Maio 2014

. Março 2014

. Janeiro 2014

. Agosto 2013

. Outubro 2012

. Agosto 2012

. Maio 2012

. Fevereiro 2012

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Setembro 2009

.tags

. todas as tags

.links

SAPO Blogs

.subscrever feeds